sábado, 18 de julho de 2009

Receita para um poeta

Risca numa folha
sem vaidade
palavras à toa
sem rumo certo
sem medida
para contemplação

Risca numa folha
sem querer ser aclamado
sem consultar
teus mestres
sem lembrar
tudo que aprendeu

Risca numa folha
como quem arrisca
um passo em falso
numa corda bamba
como quem entra
na dança sem saber dançar

Risca numa folha
como quem nada quer
sem armar uma cilada
sem sugerir nada
sem querer cantar
risca sem nada esperar

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Espetáculo


HO! horríveis espectadores
venham cínicos gargalhar
das dores de uma mulher
jogada na tristeza.
Venham ver definhar a beleza
de uma vencida no mundo.
Aplausos para louca
que se esvai em lágrimas.

Curso das águas

Quando o menino perceber suas asas;
não temerá o vôo arriscado,
não derramará uma lágrima
nem retornará ao ninho.

Quando o menino deixar de ser menino;
no solitário brilho da estrela,
no dobrar de um sino distante
sentirá uma febre endoidecido.

Quando o jovem selvagem rebentar
em músculos,pêlos e poesia
gozará de amores,pisará no fogo,
e no colo de uma mulher adormecerá.

Já no pôr-do-sol da vida,
no momento exato do sonho,
cantará ao pé de uma montanha
sua suave canção ao vento.

Meus algarismos

O flautista transforma o ar
em música.
Folhas secas brincam
no vento.
Eu,inteiro,completamente
sonho...

A prata nas folhas,nos frutos,
no caminho.
Prata brilhante do orvalho
nas macias espumas do mar.
Assim vale a pena quebrar
o silêncio...

Tuas mãos mergulhando
nas pequenas ondas.
Os espinhos se partem.
Permaneço inalterável
neste estado flutuante.
Alheio...

Atiro um grito de felicidade
e alguém me escuta.
Gotas cristalinas,
linhas coloridas,
ligam-se todas as formas;
somam meus algarismos.

Canção para um coração solitário

Quando chegares onde cessa o vento
na curva de alguma estrada,
procure o lago silencioso.
Assim como Narciso,
observe o reflexo do rosto
no lago.
Vá soprando na água
até que se desfaça a imagem,
e no ondular suave
das pequenas ondas
provocadas pelo sôpro,
deixa navegar teu desejo.
Por fim,ao cair da noite,
derramado aos pés da lua,
penetra infausto no vazio
como guerreiro vencido
em um grande combate.

Sabbatu

Aqui sentado,regando
as flores desta cortina,
deixo fugir o tempo.

O vento sacode o pano,
as pétalas,
a vida.

Minha palavra
também voa
sem ter onde pousar.

Todos estes pássaros
que invento
sustentam-se no céu.

Descanso neste sábado
soltando o leme,
deixando que o vento dê direção.

A corda

Amarra bem forte
teus sonhos
no canto dos motores
que passam na avenida.

Desperta para o dia.
Puxa lá do fundo
do poço
teus olhos sonolentos.

Enforca essa preguiça
no canto
do quarto.

Acorda com os relógios
da casa.
Tira essa coisa do pescoço.